quarta-feira, 24 de junho de 2026

Os vieses comportamentais e as decisões financeiras

     

     Geralmente imaginamos que investir é puramente uma questão de lógica e matemática. Acreditamos que as decisões financeiras são baseadas apenas em dados e cálculos. Mas, na realidade, essas decisões ocorrem de forma diferente.

     O mercado financeiro envolve decisões pessoais e, onde há pessoas, existem emoções. O medo de perder dinheiro ou a pressa para lucrar acabam pesando na balança, muitas vezes mais do que uma planilha. Neste contexto, vamos ver como os fatores emocionais influenciam nas escolhas relacionadas com o seu dinheiro.


     O que são os vieses comportamentais?

     Podemos considerar como atalhos mentais que o nosso cérebro utiliza sem percebermos, misturando a lógica com a emoção. São armadilhas psicológicas que nos fazem desviar do que seria uma decisão mais racional e calculada.

     Se as nossas decisões fossem baseadas apenas na razão, é provável que não doaríamos dinheiro sem receber algo em troca, nem faríamos aquele “joguinho” por ver o prêmio acumulado. Mas estas decisões são relativamente comuns entre os seres humanos.

     No mundo dos investimentos, esses vieses ou "comportamentos" levam a muitas decisões que não são  racionais, e eles aparecem quando alguém:

  • confia demais na própria intuição e ignora os riscos;
  • segue um "guru" dos investimentos, achando que ele nunca erra;
  • segura uma ação em queda só pelo orgulho de não aceitar o prejuízo;
  • busca apenas notícias que concordam com o que ele pensa, ignorando os alertas do mercado.

     Em resumo, os vieses são o fator humano agindo inconscientemente nas decisões relacionadas com as finanças.


     Mas afinal, como lidar com essas armadilhas mentais?

     Agora que você já sabe que o cérebro, por meio dos vieses de comportamento, pode impactar a sua avaliação e tomada de decisões em relação às suas finançascomo fazer boas escolhas? 

     Uma sugestão importante é criar um sistema que proteja você de si mesmo, para manter os pés no chão:

     Olhe para dentro: fique atento aos seus gatilhos emocionais. Se surgiu uma euforia excessiva ou um medo que paralisa, a alternativa mais adequada é avaliar bem as situações.

     Diversifique ! Mas não apenas a carteira de investimentos, mas até as suas fontes.  Siga o ditado "não coloque todos os ovos na mesma cesta". E neste sentido, não leia apenas quem concorda com você. Busque análises especializadas e até contrárias ao que você pensa, para desafiar suas próprias certezas.

     Tenha um mapa de navegação: saiba exatamente qual é o seu perfil de investidor e desenhe uma estratégia clara, com objetivos e prazos definidos. Seguir um plano estruturado evita que você tome decisões por impulso.

     Até aqui, apresentei um passo importante, que é compreender que o problema existe. A partir do momento que você sabe o que são os vieses comportamentais, pode começar a trabalhar para identificá-los e superá-los, focando no que realmente importa: a sua estratégia e não os impulsos.


VIESES de comportamento e decisões financeiras. Como Investir | ANBIMA, 17 maio 2022. Disponível em: https://comoinvestir.anbima.com.br/noticia/vieses-de-comportamento-e-decisoes-financeiras/.


quinta-feira, 23 de abril de 2026

Diagrama de causa e efeito: uma aplicação prática na gestão no campo


Como identificar a origem dos problemas na sua propriedade rural? Por exemplo: por que a produtividade desta safra diminuiu? O que explica a frequência de verminose nos animais? O diagrama de causa e efeito é uma ferramenta que pode ajudar a encontrar essas respostas.


   Na natureza, todo resultado é consequência de um conjunto de fatores interligados. Os processos biológicos e ambientais atuam em conjunto, e suas interações geram efeitos que podem ser observados diretamente no campo.  Mas essa relação de causa e efeito, presente tanto no crescimento das plantas quanto na saúde dos animais, pode ser analisada de forma sistemática.

     Você já pensou em como identificar a origem dos problemas na sua propriedade rural? Por exemplo: por que a produtividade desta safra diminuiu? O que explica a frequência de verminose nos animais? Pois saiba que o diagrama de causa e efeito é uma ferramenta que pode ajudar a encontrar essas respostas.



     Ao aplicá-lo na rotina do campo, será possível visualizar de forma clara as relações entre as causas e os efeitos dos desafios enfrentados. Assim, esta ferramenta se torna um recurso importante na gestão rural ao apoiar decisões mais assertivas.

   O diagrama de causa e efeito também é conhecido como diagrama de Ishikawa ou diagrama de espinha de peixe. Foi criado na década de 40 pelo engenheiro Kaoru Ishikawa, na Universidade de Tóquio, e ainda hoje é amplamente utilizado por empresas de todo o mundo. Este diagrama tem o objetivo de facilitar a identificação de causas potenciais de um problema específico por meio de uma ferramenta visual, que conecta o problema às suas possíveis origens. A filosofia que embase o método é que para resolver um problema, primeiro precisamos entender suas causas. Embora tenha sido criado para problemas de qualidade na indústria, o diagrama tem potencial para análise de problemas de diversos setores, incluindo a gestão no campo.

    O Diagrama de Ishikawa parte da ideia de que todo problema tem causas específicas que podem ser descobertas e corrigidas. Ele funciona como uma ferramenta de análise estruturada, ajudando a seguir um caminho lógico: começamos pelo efeito observado e vamos verificando as possíveis causas que o originaram.

   Para facilitar essa busca pelas causas, o método original organiza as causas em seis grandes grupos: máquina, material, mão de obra, método, medida e meio ambiente

   Essas categorias funcionam como pontos de partida para  entender de onde surgem os problemas. Assim, o diagrama ajuda a visualizar de forma clara e prática como diferentes fatores se conectam, tornando mais fácil identificar as possíveis soluções. Estes grupos ou categorias tradicionais podem ser adaptados para refletir a realidade da propriedade rural. Uma possível adaptação na gestão rural seria usar categorias como clima, solo, genética, manejo, equipamentos e pessoal.

   Segue um exemplo prático de utilização do Diagrama de Ishikawa em uma propriedade rural que está enfrentando um aumento nos casos de verminose em ovinos, comprometendo a saúde do rebanho e a produtividade. 

   O proprietário reuniu sua equipe e definiu que o problema central é o seguinte: “alta incidência de verminoses em ovinos”. O problema é colocado na extremidade direita do diagrama.

   As categorias principais adaptadas para este caso foram: alimentação, sanidade, instalações, manejo, ambiente e pessoal.

   Na categoria alimentação, foram identificadas causas como pastagens contaminadas por larvas e ausência de rotação adequada dos piquetes. 

   Em sanidade identificaram fatores como falta de um protocolo de vermifugação e a resistência dos parasitas aos medicamentos.

   Ao analisar as instalações, apareceram problemas como comedouros e bebedouros mal posicionados e áreas de descanso sem uma limpeza frequente.

   No grupo manejo, verificou-se a superlotação dos animais em áreas restritas e intervalos inadequados entre vermifugações.

   Em relação ao ambiente, verificaram a alta umidade e temperatura, além da falta de drenagem adequada no solo.

   Por fim, na categoria pessoal, foram apontadas falhas como falta de treinamento para identificar sinais clínicos e manejo incorreto na aplicação de medicamentos.


   Esse processo estruturado permitiu que o proprietário e sua equipe visualizasse de forma clara as diferentes causas relacionadas ao problema, facilitando a definição de ações corretivas e preventivas para reduzir a incidência de verminoses e melhorar o desempenho do rebanho.

   Assim, o Diagrama de causa e efeito, também chamado de Diagrama de Ishikawa é mais que uma ferramenta, mas uma forma estruturada de enxergar os problemas na gestão rural. Ao utilizar no dia a dia, o produtor pode analisar as situações com mais clareza, pois uma virtude deste diagrama é  organizar as causas e os efeitos de maneira simples, revelando relações que normalmente não seriam percebidas.

   Aplique o diagrama em um desafio real de sua propriedade, adapte ao seu contexto e observe como a análise se torna mais completa. Compartilhe suas impressões nos comentários e enriqueça a troca de experiências.


RAMOS, Edson Marcos Leal Soares. Controle estatístico da qualidade. [recurso eletrônico]. Porto Alegre: Bookman, 2013.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Uma só mesa. Um só Agronegócio.

   


   O agronegócio brasileiro é um só. Não se divide por narrativas fragmentadas, separando pequenos, médios e grandes produtores, mas se apresenta como um sistema integrado, que garante alimento, renda e desenvolvimento ao País. Vamos ilustrar isso. Pense nas três refeições principais de uma família: o café da manhã, o almoço e o jantar. Se atentarmos para os diferentes alimentos que consumimos em cada refeição, veremos a participação de pequenos, médios e grandes produtores. Cada produtor, neste contexto, participa de forma complementar, garantindo a segurança alimentar interna e o protagonismo do Brasil no contexto internacional. 

   Aproveitando o contexto apresentado, vamos definir o conceito de agronegócio, o conceito original, cunhado no final da década de 50, buscando entender a nova realidade do setor e compreender todos os componentes e inter-relações nas diferentes cadeias produtivas. Vejamos o conceito então: conjunto de todas as operações e transações envolvidas desde a fabricação dos insumos agropecuários, das operações de produção nas unidades agropecuárias, até o processamento, distribuição e consumo dos produtos agropecuários ‘in natura’ ou industrializados.  Destaco, no conceito apresentado, o trecho “... o conjunto de todas as operações [...] de produção...”, ou seja, não são as operações do pequeno, do médio ou do grande produtor, mas a soma de todos. 

   Agora vamos falar de alguns números do agronegócio brasileiro: em 2025, o Brasil produziu em torno de 320 milhões de toneladas de grãos segundo a Conab/Embrapa, crescimento de 10,2% em relação a 2024, exportou US$ 170 bilhões e o superávit da balança comercial do setor foi de US$ 149 bilhões. Sem o setor, o Brasil teria déficit comercial. Segundo a Embrapa, o agro brasileiro é responsável por alimentar quase 10% da população global, ou seja, cerca de 800 milhões de pessoas no mundo. Estamos entre os maiores exportadores mundiais de soja, café, açúcar, suco de laranja, carne de bovina e frango, além de algodão. Só em 2025, o agro cresceu em torno de 7%. Além disso, mesmo que as estimativas variem, cerca de 15% da população são produtores rurais, e são responsáveis por aproximadamente um terço do PIB nacional. 

   Por fim, é importante destacar, quando olhamos para os aspectos de produtividade do setor, a função social cumprida pelo mesmo. A própria legislação, a Lei 4.504/64 (o chamado Estatuto da Terra), entre seus artigos, destaca que a propriedade da terra desempenha a sua função social quando, simultaneamente, e entre outros, mantém níveis satisfatórios de produtividade. Além disso, a própria legislação entende por “Política Agrícola o conjunto de providências de amparo à propriedade da terra, que se destinem a orientar, no interesse da economia rural, as atividades agropecuárias, seja no sentido de garantir-lhes o pleno emprego, seja no de harmonizá-las com o processo de industrialização do país.” Observamos pontos importantes nesta última definição, como o interesse na economia rural (no sentido do desenvolvimento e na sustentabilidade da economia ligada ao campo) e a integração com o processo de industrialização, o que vem de encontro com os conceitos atuais sobre agronegócio, mais especificamente sobre a integração agricultura x indústria. Outra legislação que reforça este contexto é a Lei 8.171/1991, que dispõe sobre a política agrícola. Em seu texto, destaca que o setor agrícola é constituído por segmentos como produção, insumos, agroindústria, comércio, abastecimento e afins; e como atividade econômica, a agricultura deve proporcionar rentabilidade compatível com a de outros setores da economia. Também destaca que “o adequado abastecimento alimentar é condição básica para garantir a tranquilidade social, a ordem pública e o processo de desenvolvimento econômico-social”. 

   Desta forma, assim como as refeições só fazem sentido quando consideradas em conjunto, o agronegócio só pode ser compreendido como algo único, e as diferentes escalas de produção se articulam para sustentar as mesas e a economia do País. 

   E por isto, creio que este entendimento faz sentido, tanto para os produtores e outros agentes do agro, quanto para os consumidores e para a própria sociedade.


Publicado no jornal Em Questão em 11.04.2026


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